O povo que não é de Belo Horizonte fala do que sabe do clima daqui sempre de forma feliz. Sempre é um clima “agradável” e “ameno”. Tá. Vamos deixar as coisas claras então. A gente tem três tipos de dia aqui: Os “agradáveis” e “amenos”, os que te congelam e os infernais. Qualquer coisa fora disso pode ser aproximada pra uma das três variações.
O lance é que é um clima confuso. Nos dias muito frios geralmente faz muito calor no meio do dia e você carrega sua blusa pesada e soa entre as pernas. Nos dias muito quentes chove muito. E nos dias muito frios que não fazem calor no meio do dia faz mais frio do que você espera. E assim vai.
A situação atual é crítica. Os termômetros da cidade dão 35°C. Jornais dizem que a sensação térmica é de 38° ( a propósito, alguém me explica, pelo amor ao bom Senhor, qual é a definição de “sensação térmica”) e os mais hiperbólicos discordam entre 5000°C e a temperatura do sol no inverno (dur!). Enfim.
Fato é que com tanto calor as nuvens ficam com graves oscilações de humor e resolvem hora chover, hora não chover e ficar quase sempre num chove-não-molha (huhuh.. hoje tô inspirado!). Daí entra em cena toda a atitude-chuva Belorizontina.
O Belorizontino é, definitivamente, feito de açúcar (ou sal de fruta ENO, pra os que gostam de fazer “ttsssss” quando se molham) . É dar aqueles ventos que dizem que a natureza está começando a pensar na idéia de chover que começa a correria, a busca pelas marquizes e o desespero de “tô sem meu guarda-chuva”. Aqueles que são inteligentes e usam ônibus normalmente e deixam o carro na garagem se emburressem quando caem os primeiros pingos e colocam o carango na rua. E faz-se o caos.
No meio disso tudo, pra quem tá se deslocando de um lugar pro outro, existem dois pontos críticos: os ônibus e as buzinas.
O primeiro é mais fácil e simples de entender. Num dia de chuva o trânsito dá uma embananada (em BH de uma forma mais tensa, como descreverei abaixo) e a galera se acumula no ponto. Quando o primeiro ônibus passa logo se enche e 70 pessoas começam a compartilhar da mesma parcela de ar. De forma inacreditável a galera não tem consciência de que o ar é um fluido que precisa de canais de escape pra se renovar. Como já dito, o cidadão de Belo Horizonte se desmancharia caso fosse molhado, o que faz com que todas as janelas e aberturas superiores dos ônibus sejam fechadas imediatamente, aplicando grave repreenssões pra quem se disponha ao contrário. Logo se faz uma sauna com essência de suor-do-dia-inteiro e a alegria se estabelece. As janelas se embaçam e te resta ouvir a sinfonia corrente lá fora. A das buzinas.
Pra quem não sabe Belo Horizonte é uma cidade planejada. O hoje “Centro” era pra ser a cidade inteira no ano 2000; ano esse que esperava contar com uma população de 200 mil habitantes enquanto tinha 3,5 milhões. Hoje tem quase 5 milhões. Outro fato importante é que por esse planejamento a construção de ruas e fluxo de trânsito deságua toda nesse “Centro”, que não tem estrutura pra isso tudo. Um estudo que li uma vez falava que 70% das pessoas que passam pelo Centro não tem absolutamente nada pra fazer lá. Só estão indo de um lado pra o outro e passam pelo caminho “mais fácil” que são as Avenidas mais largas enquanto podiam passar pelos bairros, com ruas mais estreitas e blábláblá. No bolo disso tudo existe aquele velho ditado que “Belorizontino tem vertigem em planícies”. A cidade é um emaranhando de morros e tem muita gente que tem dificuldade com a embreagem. Ponto.
Os engarrafamentos de BH não são tão estúpidos quanto os de São Paulo, pelo que tenho notícia. Enquanto lá você fica em média 2 horas agarrados quando tá tudo bem aqui em BH varia entre 30 minutos e 1 hora. Já irrita, mas há piores.
Voltando, o fato dos morros é importante porque quando o trânsito trava você tem 4 situações possíveis:
1) Você tá em cima de um morro, o que te mostra que na sua frente tudo está parado;
2) Você está no começo da subida do morro, o que te dá visão do morro inteiro e te garante que está tudo parado à sua frente;
3) Você está num raro lugar plano, o que te dá visão da subida do morro inteiro e te garante que, supreendentemente, parado à sua frente tudo está;
4) Você tá no meio do morro e tudo dito pros outros casos continua valendo.
Independemente da situação que a galera se encontra sempre acontece um fenômeno engraçado que me faz crer o quanto a galera daqui é religiosa. A única explicação plausível pra o tanto que esse povo enche a mão na buzina é um crença coletiva de que Moisés descerá na frente deles e fará exatamente o que fez com os judeus no Mar Vermelho, garantindo assim o trânsito livre pra que eles possam chegar ao destino sem ter que ficar agarrado como todos os outros. Ou então é a veia artística que todo mundo fala que mineiro tem e a galera resolve fazer música. Vai saber.
Eu escrevi um monte de bobagem mas é porque hoje eu fiquei com preguiça disso tudo no “Centro” e vi um monte de cena ridícula. Eu não tenho carro, não tenho guarda-chuva (pois sempre perco os meus) e ando de ônibus. Eu devo gostar de sauna e não sei. É a única explicação que Freud me daria.