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Quem me conhece sabe que eu sou um música chato, detalhista e prego. Odeio trabalho porco, despreocupado e caça-níquel. Mas ao mesmo tempo respeito o som inteligente, bem feito e dedicado. Eu sempre vou citar Alex Manzi como o senhor que abriu as portas pra o trabalho que não se contenta com feijão com arroz. Tirei a sorte grande e me orgulho de ser chamado de baterista preferido por esse distinto rapaz. E depois de sair dos covers não pensados e dos pops fracos que tive antes de conhecê-lo não consigo mais voltar atrás. Depois dos Capazes meu crivo apertou e eu fiquei mais chato que era.

Existe uma máxima que diz que você só é Belorizontino se faz parte de uma banda ou possui no mínimo três amigos que façam parte de uma. Apesar de hoje não estar oficialmente agregado a um grupo, já ocupei a vaga de baterista em alguns e possuo bem mais que três amigos que fazem parte de um. Sou Belorizontino dos bons, que vê a esquina com a placa do Clube de Esquina em Santa Tereza e fica pensando o que passava na cabeça daqueles loucos, que tem tios violeiros do interior e que vai pra praça no domingo só pra ver se tá rolando algum showzinho, o que quase sempre se figura.

Após rodar um tempo no mercado pseudo-pop de BH e cair nas graças de um trabalho que deu gosto de participar julgo-me com um pouco de culhão pra falar mal do que vejo. Falar mal. Mesmo. Porque a oferta de músicos descompromissados e sonhadores-utópicos na cidade é imensa, sendo esses adeptos do trabalho porco e atitude sou rock-star-porque-já-abri-um-show-do-Skank (ou Jota Quest, ou Tianastácia, ou toquei na festa do filho do primo do roadie de alguma dessas bandas). E isso me dá asco. Porque ninguém considera estudo musical e técnico importante. Só querem tocar e curtir. Não que eu ache isso ruim! Longe de mim! Se querem tocar e curtir, toquem e curtam, mas se atenham à sua insignificância e não pousem como a última cocada da bandeja, por favor.

Eu sei que esses três parágrafos dizem “Pronto. Nem sei o que é ‘Cinza’ mas ele já vai descer a ripa”. Pelo contrário amiguinhos. Isso é só um semi-desabafo, mas não se assustem porque a intenção é sim babar-ovo e ser exagerado sem nenhum limite. E o que eu quero deixar claro é que, se eu vou falar o que vou falar agora, é porque eu gostei do que vi para caráleo. E quando eu rasgo cedo, eu rasgo direito. :)

Ontem, na Obra, Cinza re-encheu meus olhinhos de esperança. Esperança de acreditar que tem alguém que quer mais que só tocar e beber por conta da casa nessa cidade. Tem gente afim de fazer música séria e boa, preocupada com estética e arranjo, com letras e significância. Alguém que sonha além do Faustão e do Marista Hall. Isso me embasbacou, emocionou e me deixou assaz feliz.

Cinza não é só o vocalista de cabeleira black-power que não pára quieto nenhum minuto do show. Nem o batera que toca com pressão, técnica afiada (o que é raro por essas bandas de cá) e faz careta sem perder a pose. Nem é só a mocinha com o ar de misteriosa que fica viajando na guitarra cantada que toca. E nem o baixista que insiste em tentar me convencer que o som que eu ouvia do baixo saia do próprio peito dele. (A observação de fã-amigo, que puxa-saco sem dó, fica pra que eu realmente ADORO Diego Mancini tocando.). Os caras tiraram um PUTA som dos instrumentos, sem embolação e com muita qualidade na Obra (a Obra é um inferninho, sem nenhum tratamento acústico e que geralmente embola tudo!). O show é feito só de músicas próprias, sem a tentativa de tacar nada conhecido no meio das músicas pra convencer ninguém. Tem cara limpa, peito aberto, autenticidade e confiança. Você sente que cada um deles é fã do som que faz. Cada um deles tá tocando o que gosta, do jeito que gosta, pra quem gosta, gostando o ouvinte ou não. E que é isso o som deles. É rock, cheio das convencões bem feitas, dos contratempos bem encaixados, das contraposições de idéias, com piano e arranjos belos. E, mesmo eu sempre deixando as letras meio de lado, o que eu ouvi cantando me mostra uma superioridade por dentro do que existe por aqui. É bom pra mai-di-metro!

Eu acho que todo mundo deve ficar de olho. O myspace dos caras é myspace.com/bandacinza e o site é o www.cinza.com.br. Compensa baixar o que tem por lá e ouvir e também compensa ver os vídeos. Se você não se impressionar e gostar como eu fiz, não delete o que você tem e nem deixe de acompanhar. Eles não me passaram nenhuma afobação ou pressa pra nada. Eu só senti que eles querem fazer um trabalho de responsa, fora do senso comum e bem feito. E, pelo menos pra esse humilde imbécil que voz fala, isso é mais que o suficiente. É uma ótima pedida pra cara nova por aí. Esperemos então o CD Fogos na Véspera pra que a gente possa cair em cima e curtir o som mais de perto.

Parabéns e sucesso, Cinzentos. ;)